Convidei mais uma vez nosso “Mestre ” Manoel Thomaz Carneiro para escrever uma nova crônica para nosso blog. Como sempre, ele se supera a cada crônica, e agora a partir da semana que vem, ele dará suas maravilhosas palestras não só no Leblon como também na Barra.

Falo por experiência própria, faço seus cursos há quase 5 anos, e posso garantir que minha maneira de pensar mudou, que durante estes anos eu cresci muito e a cada vez aprendo mais com ele. Tenho certeza que será um sucesso seu novo curso, e que todas as suas novas alunas ficarão encantadas com sua sabedoria.

MP

 

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                             PENSAR TODO MUNDO PENSA

MAS PENSAR BEM, EIS A QUESTÃO.

 

“Outro dia fui convidado para mais uma entrevista no Sem Censura sobre o Enfrentamento. Como sempre faço quando me propõem um tema, passeio pelos pensamentos para a construção da ideia sobre o que devo falar.

A primeira coisa que me veio à mente foi a diferença entre Viver e Existir. Estar vivo é uma coisa, mas saber existir na vida é outra questão.

É um hábito na vida humana, amigos sentarem para um café. Em meio a conversa, alguém começa a contar uma estória pessoal ou mesmo de outra pessoa. E, então… Uma análise coletiva se instala. O encontro por um bom período transforma todos em psicanalistas, psicólogos e até juízes são incorporados. Em verdade todo mundo tem uma psicologia pessoal para viver. Afinal, pensar todos pensam, mas pensar direito com bases fundamentadas em conhecimentos precisos, eis a questão.

A vida exige mesmo de cada um de nós, sabedoria e força. Este aspecto me traz sempre a mente a grande frase de Freud, “Somos feitos de carne, mas temos que viver como se fôssemos de ferro“. O que me leva a pensar na indiferença da vida diante de cada pessoa! Ela não pede licença para apresentar algo difícil e nem pergunta se a pessoa está pronta para aquele acontecimento.

 

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Na mitologia grega encontra-se a narrativa das três irmãs Moiras que traçam o destino de cada um de nós. Uma é cega, outra é muda e a terceira é surda. A cega tece o ponto do destino sem olhar para quem, a surda sem escutar os apelos de proteção, tece outro acontecimento e a muda arremata o drama sem dizer uma palavra sobre como enfrentar aquele destino tramado.

 

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As três irmãs Moiras traçando os destinos de todos nós.

 

Não podemos ser indiferentes às tecelãs da vida. Temos que, diante de cada destino tramado, encontrar uma destinação de boa continuidade. Cada um de nós precisa pensar com conteúdos de perspectivas sem grandes marcas de dor, de ódio e de revolta.

Por este aspecto inerente a vida é que aprender a pensar é fundamental para qualquer pessoa. Para viver bem precisa encontrar uma orientação, uma referência e se apoiar na força de uma ideia consistente.

Ao encontrar um rabino e falar sobre este aspecto, ele me contou uma estória muito interessante que ele havia escutado de outro rabino.

Havia, numa época bem distante, uma tribo que lutava contra a outra. Uma delas tinha como referência de confiança Moisés. Toda vez que ele percebia que a exaustão invadia o combate, levantava a mão e os guerreiros olhavam para o céu e reconquistavam força para o enfrentamento. Moisés, na verdade, não tinha nenhuma força especial, mas a confiança que eles tinham no líder, atuava como um despertar de capacidade. Venceram o combate.

O que os diferenciavam em relação a tribo perdedora? Era o fato de acreditar que Moisés ao levantar a mão, impunha a lembrança que nos céus havia a força.

Esta passagem simboliza o que em psicologia é chamado de Estado Numen. Quando algo, um arquétipo ou uma ideia é estimuladora da suscitação de uma condição interna na pessoa.

Difere do conceito de Iluminado, que vem de fora. O Inuminado suscita em si mesmo por uma confiança profunda em algo, o sentimento de capacitação.

Quando elegemos uma fonte significante de referência, esta pessoa ou arquétipo funciona como um suscitador de traços de capacitação. Portanto, um grande aprendizado é saber que devemos buscar referências construtoras e evolutivas.

Somos modelados e desenvolvidos através das ideias que se tornam conteúdos de nossos pensamentos e reflexões. O destino acontece, mas a destinação que damos a cada um de nós é um ato pessoal de escolha.

A palavra tragédia tem origem na palavra grega trage-odes, que significa canto dos bodes. Trage-odes descrevia o choro dos bodes quando percebiam que iriam ser sacrificados, que não havia mais saída. Portanto o destino de fato acontece, mas a sensação do trágico é construída quando diante de um acontecimento, ela se pensa sem saída. A partir daí, através da desesperança, do não saber se refletir com a capacitação, a pessoa canta a tragédia grega. O canto dos bodes.

Quando concedi a entrevista para o Sem Censura, estava ao meu lado um outro entrevistado que era um rapaz chamado Oscar Capucho. Ele ficou cego aos 9 anos. Sua perda foi gradual. Sua mãe dizia: “Filho preste bem atenção a tudo, nas cores, nas formas, para que você possa guardar estas imagens em seus pensamentos. Será através destes pensamentos, que você verá o seu futuro“.

A mãe era a figura que ele elegeu como confiança e referência. Através das ideias de capacitação que ela passava, ele se pensava e se modelava.

Oscar conseguiu, apesar da cegueira, se tornar bailarino. Oscar Capucho dançou um pas de deux na abertura da Paralimpíada do Rio.

Diante do destino limitador, ele encontrou uma destinação de amplitude e liberdade. Evitou a tragédia. Evitou dançar o Canto dos Bodes. Aprendeu a pensar. Aprendeu a se pensar.

Oscar não se define como cego. Tem uma cegueira, que não o impede de enxergar a liberdade. Aprendeu que a vida impõe acontecimentos inevitáveis, mas que qualquer um pode se impor diante da vida.

Pensar todo mundo pensa, mas pensar bem, eis a questão.

Viver todo mundo vive, mas Existir bem na vida, eis a questão.”

Manoel Thomaz Carneiro

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